Ciência e Cultura

As pinturas nas cavernas de há 40 000 anos revelam que o pensamento simbólico humano é muito mais antigo do que se julgava

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As pinturas nas cavernas de há 40 000 anos revelam que o pensamento simbólico humano é muito mais antigo do que se julga
As pinturas nas cavernas de há 40 000 anos revelam que o pensamento simbólico humano é muito mais antigo do que se julga

A grande ideia

Durante muito tempo, acreditou-se que a arte e o pensamento abstracto tinham surgido de forma súbita, há cerca de 30 000 a 35 000 anos, numa espécie de "revolução criativa" que teria transformado de repente os nossos antepassados em seres plenamente modernos. As datações mais recentes obrigam a abandonar essa narrativa limpa. Vários painéis pintados e gravados em cavernas da Europa e do Sudeste Asiático foram medidos com idades superiores a 40 000 anos, recuando o relógio da expressão simbólica para muito mais longe.

O ponto central não é a beleza das imagens, embora ela impressione. É o que elas implicam sobre a mente de quem as fez. Pintar um cavalo ou imprimir a própria mão numa parede exige planear, escolher materiais, dominar uma técnica e, sobretudo, aceitar que uma marca na rocha pode "valer" por algo ausente. Essa capacidade de representação é a raiz do pensamento simbólico, o mesmo que sustenta a linguagem, a religião e a matemática.

Se essa faculdade já existia há 40 000 anos ou mais, então não foi um interruptor que se ligou de repente. Foi antes uma herança lenta, possivelmente partilhada por mais do que uma espécie humana. A arte rupestre deixa de ser um adorno do passado e passa a ser uma das melhores provas materiais de como pensávamos.

A ciência e a história

A reviravolta nas datas deve-se em grande parte a um método chamado série de urânio-tório. Em vez de datar o pigmento, os investigadores datam as finas crostas de calcite que a água deposita lentamente por cima das pinturas. Como a calcite só se pôde formar depois de a marca existir, a sua idade fornece uma data mínima para a imagem por baixo. Na gruta de El Castillo, em Cantábria (Espanha), um disco vermelho foi assim datado em pelo menos 40 800 anos.

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Em França, a célebre gruta de Chauvet, na região do Ardèche, conserva painéis de leões, rinocerontes e cavalos cuja idade, obtida sobretudo por radiocarbono, ronda os 36 000 anos, com indícios de ocupação ainda mais antiga. Do outro lado do mundo, na ilha de Sulawesi, na Indonésia, mãos em negativo e figuras de animais foram datadas em mais de 40 000 anos, mostrando que o impulso de pintar paredes não foi exclusivo da Europa.

Há ainda um debate fascinante e por resolver. Em El Castillo e noutras grutas ibéricas, algumas das datas mais antigas aproximam-se do período em que os Neandertais ainda habitavam a região. Vários investigadores defendem, com prudência, que parte destas marcas mais simples poderá ter sido feita por Neandertais, e não por humanos modernos. A hipótese continua em discussão e exige confirmação, mas, a verificar-se, alargaria o pensamento simbólico a outra linhagem humana.

Importa marcar a fronteira entre o que é sólido e o que é estimativa. As datas das crostas de calcite são robustas e replicáveis; a atribuição autoral de cada painel a uma espécie concreta é, em muitos casos, ainda uma interpretação em aberto.

Por que importa

Recuar a origem do pensamento simbólico muda a forma como entendemos a nossa própria natureza. Se a capacidade de criar e ler símbolos é tão antiga, ela é menos um acidente cultural recente e mais um traço profundo do que significa ser humano. As mesmas estruturas mentais que permitiram pintar um bisonte permitem-nos hoje escrever um contrato, rezar ou desenhar um mapa.

Esta antiguidade dialoga com a forma como pensamos a evolução. A famosa ideia do gene egoísta e dos replicadores que competem ao longo do tempo lembra-nos que a selecção natural moldou corpos e cérebros ao longo de milhares de gerações. O pensamento simbólico não terá brotado pronto: foi sendo lapidado, geração após geração, até se tornar a ferramenta cognitiva que nos define.

Há também uma lição de humildade. Tendemos a olhar para os caçadores-recolectores do Paleolítico como mentes primitivas, quando os dados sugerem o contrário: planeavam, abstraíam e comunicavam ideias complexas. Subestimar a inteligência de quem nos precedeu é um erro recorrente, parente próximo do enviesamento que nos leva a sobrestimar a nossa própria superioridade face a quem julgamos menos capaz.

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Erros comuns

O primeiro equívoco é confundir a idade do pigmento com a idade da pintura. O carvão e o ocre usados podem ser muito mais antigos do que o gesto de pintar, e a tinta nem sempre se deixa datar directamente. Por isso a datação das crostas de calcite por cima das imagens é tão valiosa: dá uma idade mínima fiável sem depender da matéria-prima.

O segundo erro é tratar a arte rupestre como se fosse toda igual e contemporânea. Estas cavernas foram visitadas e repintadas ao longo de dezenas de milhares de anos. Um mesmo painel pode juntar gestos separados por milénios, pelo que falar de "a arte de Chauvet" como um momento único é enganador.

O terceiro equívoco é assumir que sabemos o que as imagens significavam. Não temos acesso às histórias, aos rituais ou às crenças associadas. Interpretações que falam de "caça mágica" ou de "xamanismo" são hipóteses plausíveis, não factos demonstrados, e devem ser tratadas como tal.

Por fim, há o erro de atribuir descobertas a uma única espécie por hábito. A possibilidade de autoria neandertal de algumas marcas ibéricas mostra que a fronteira entre "nós" e "eles" é mais ténue e mais interessante do que a versão simplificada que circula.

Para onde caminha

A investigação avança em duas frentes. Por um lado, técnicas de datação cada vez mais precisas, capazes de medir amostras minúsculas de calcite, prometem resolver parte das incertezas actuais e confirmar ou afastar a autoria neandertal de painéis específicos. Cada novo resultado pode empurrar de novo, para trás ou para a frente, a data que hoje tomamos por referência.

Por outro lado, novas descobertas fora da Europa, sobretudo na Indonésia, na Austrália e em África, estão a redesenhar o mapa. Quanto mais cedo e em mais lugares se encontra arte simbólica, mais forte fica a ideia de que esta faculdade acompanhou a humanidade desde muito antes da saída de África, em vez de ter nascido num único berço europeu.

O retrato que emerge é o de uma mente humana que não acordou de repente para o símbolo, mas que o foi conquistando ao longo de um tempo imenso, possivelmente partilhando essa conquista com primos já extintos. As paredes pintadas de há 40 000 anos não são apenas as primeiras obras de arte: são as primeiras provas duradouras de que pensávamos como pensamos hoje.

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