A gramática universal que Chomsky acredita estar gravada no cérebro de todos os seres humanos

A grande ideia
Em meados do século XX, um jovem linguista chamado Noam Chomsky fez uma pergunta aparentemente simples: porque é que todas as crianças do mundo aprendem a falar com tanta facilidade, mesmo sem que alguém lhes ensine formalmente as regras da gramática? A resposta que propôs viria a abalar não só a linguística, mas também a psicologia e a filosofia da mente.
A sua tese central ficou conhecida como gramática universal. Segundo Chomsky, o cérebro humano não chega ao mundo como uma folha em branco no que toca à linguagem. Pelo contrário, traz consigo uma espécie de andaime mental, um conjunto de princípios estruturais comuns a todas as línguas. As línguas concretas, do português ao mandarim, seriam variações em torno desse esquema partilhado.
Esta ideia rompia com a corrente dominante da época, o comportamentalismo, que via a linguagem como um simples hábito adquirido por imitação e reforço. Para Chomsky, a imitação não chegava para explicar como uma criança produz frases que nunca ouviu antes. Algo na própria arquitetura da mente teria de estar a guiar esse processo criativo.
A ciência por detrás da hipótese
O argumento mais citado a favor da gramática universal é o chamado problema da pobreza do estímulo. A linguagem que uma criança ouve é fragmentada, cheia de frases incompletas e erros. Ainda assim, em poucos anos, qualquer criança saudável domina um sistema gramatical de enorme complexidade. Chomsky concluiu que a informação disponível no ambiente é insuficiente para explicar esse resultado, o que sugere uma contribuição interna do próprio cérebro.
Um conceito tornou-se central na sua obra mais recente: a recursividade. Trata-se da capacidade de encaixar estruturas dentro de estruturas, de forma potencialmente ilimitada. Uma frase como o gato que perseguiu o rato que comeu o queijo mostra como ideias se aninham umas nas outras. Num artigo influente de 2002, escrito com Marc Hauser e Tecumseh Fitch, Chomsky defendeu que esta capacidade de combinação recursiva poderia ser o traço verdadeiramente distintivo da linguagem humana.
Importa ser claro quanto ao estatuto destas ideias. A gramática universal não é um facto demonstrado em laboratório como uma lei da física, mas sim um quadro teórico, defendido por uns e contestado por outros. Ao longo de décadas, Chomsky reformulou várias vezes a proposta, do modelo de princípios e parâmetros até ao chamado Programa Minimalista, que procura reduzir a faculdade da linguagem ao seu núcleo mais simples possível.
A neurociência ainda não localizou um órgão da gramática no cérebro. O que existe é evidência de que certas regiões, como a área de Broca, participam no processamento sintático. Continua em aberto saber se isso reflete um mecanismo inato e específico da linguagem ou capacidades cognitivas mais gerais reaproveitadas para falar.
Porque é que isto importa
A proposta de Chomsky deslocou o estudo da linguagem para o interior da mente. Em vez de descrever apenas os sons e as palavras que observamos, os linguistas passaram a perguntar que sistema mental torna possível produzir e compreender frases. Esta viragem cognitiva influenciou áreas tão diversas como a ciência da computação, a teoria dos autómatos e o estudo da inteligência artificial.
A ideia também alimenta um debate filosófico antigo sobre o que nos torna humanos. Se existe de facto uma faculdade da linguagem inscrita na nossa biologia, então a linguagem deixa de ser um mero acessório cultural para se tornar parte daquilo que define a nossa espécie. Esta discussão dialoga com outras tentativas de compreender o aparecimento da cognição simbólica, como o estudo da arte rupestre paleolítica e o surgimento do pensamento simbólico moderno.
Para além disso, a obra de Chomsky lembra-nos de quão pouco ainda sabemos sobre a mente. Tal como a procura de matéria escura no cosmos revela um universo dominado por algo que não conseguimos ver diretamente, também a origem da linguagem aponta para estruturas internas cuja natureza exata continua por desvendar.
Erros comuns
Um equívoco frequente é imaginar que a gramática universal significa que nascemos a saber português ou inglês. Não é isso que a teoria afirma. O que seria inato é o conjunto de princípios gerais que tornam qualquer língua aprendível, e não o vocabulário ou as regras particulares de um idioma específico, que dependem sempre da exposição ao ambiente.
Outro erro é confundir as posições linguísticas de Chomsky com as suas ideias políticas. Chomsky é também um conhecido crítico político, mas as duas vertentes da sua obra são independentes. Avaliar a gramática universal exige discutir dados sobre línguas e aquisição, não opiniões sobre geopolítica.
Há ainda quem apresente a gramática universal como consenso fechado. Não é. Linguistas como Daniel Everett, a partir do estudo da língua pirahã na Amazónia, questionaram a ideia de que a recursividade é universal. Outros investigadores defendem que a linguagem emerge sobretudo do uso e da aprendizagem estatística. O debate permanece vivo e legítimo.
Por fim, convém não tratar a teoria como imutável. As próprias formulações de Chomsky mudaram ao longo de mais de meio século. Citar uma versão antiga como se fosse a sua posição atual gera confusão e distorce o estado real da discussão.
Para onde caminha
A investigação atual procura testar empiricamente o que antes era sobretudo teórico. Estudos de aquisição em crianças, comparações entre centenas de línguas e experiências com inteligência artificial tentam avaliar se há de facto limites comuns à forma das línguas humanas. Os grandes modelos de linguagem, que aprendem padrões a partir de enormes quantidades de texto, tornaram-se um campo de teste inesperado para velhas perguntas sobre o que é necessário para dominar a sintaxe.
Curiosamente, Chomsky tem-se mostrado cético quanto à ideia de que estes sistemas nos ensinem algo profundo sobre a mente humana. Para ele, prever a próxima palavra não é o mesmo que compreender a estrutura subjacente da linguagem. Outros investigadores discordam e veem nesses modelos uma oportunidade para repensar a necessidade de mecanismos inatos.
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A genética e a biologia evolutiva são outra fronteira. Compreender como e quando a capacidade linguística surgiu na história da nossa espécie continua a ser um dos maiores enigmas em aberto, e qualquer resposta terá de articular dados de paleontologia, genética e ciência cognitiva, com margens de incerteza que devem ser assumidas com honestidade.
Independentemente de como o debate se resolva, a pergunta original de Chomsky mantém toda a sua força. Ao olhar para uma criança a aprender a falar, continuamos a assistir a um dos fenómenos mais extraordinários da natureza, e ainda não sabemos explicá-lo por completo.
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