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A capacidade de imaginar o que os outros pensam — e o que acontece quando ela falha

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A capacidade de imaginar o que os outros pensam — e o que acontece quando ela falha
A capacidade de imaginar o que os outros pensam — e o que acontece quando ela falha

A grande ideia: viver dentro da cabeça dos outros

Há um talento que usamos centenas de vezes por dia sem reparar: a capacidade de imaginar o que se passa na mente de outra pessoa. Quando vemos um colega franzir a testa e concluímos que está aborrecido, quando guardamos uma surpresa porque sabemos que o destinatário ainda não sabe, ou quando contamos uma mentira a contar com a ignorância do outro, estamos a fazer uma operação mental extraordinária. A psicologia chama-lhe teoria da mente.

O termo foi introduzido em 1978 pelos primatologistas David Premack e Guy Woodruff, num artigo célebre que perguntava se um chimpanzé tem teoria da mente. A expressão fixou-se: trata-se da capacidade de atribuir a si mesmo e aos outros estados mentais como crenças, desejos, intenções e conhecimento, e de compreender que esses estados podem diferir dos nossos e da realidade.

O detalhe decisivo é a palavra crença. Não basta perceber que alguém quer algo ou sente algo; é preciso compreender que a pessoa pode acreditar em coisas falsas e agir em função dessa crença errada. É aqui que a teoria da mente deixa de ser mera leitura de emoções e se torna numa simulação genuína de outra mente, com o seu próprio retrato do mundo.

Esta capacidade é tão central na vida humana que a damos por garantida. Só quando observamos como ela se constrói na infância, ou o que sucede quando funciona de forma diferente, percebemos quão sofisticada é a maquinaria que está por trás de um gesto tão banal como contar um segredo.

A ciência: o teste da falsa crença

A ferramenta clássica para medir a teoria da mente é o teste da falsa crença, desenhado nos anos 1980 pelos psicólogos Heinz Wimmer e Josef Perner, e popularizado por Simon Baron-Cohen, Alan Leslie e Uta Frith. A versão mais conhecida chama-se tarefa de Sally-Anne. À criança mostram-se duas bonecas: a Sally guarda um berlinde num cesto e sai da sala; enquanto está fora, a Anne tira o berlinde e esconde-o numa caixa. Pergunta-se então onde é que a Sally vai procurar o berlinde quando voltar.

A resposta correta é o cesto, porque a Sally não viu a troca e mantém uma crença falsa. As crianças tipicamente passam a dar esta resposta de forma fiável por volta dos quatro anos. Antes disso, muitas apontam para a caixa, ou seja, atribuem à Sally o conhecimento que elas próprias têm. É como se a fronteira entre a sua mente e a dos outros ainda não estivesse traçada.

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Há sinais de que formas mais precoces e implícitas desta capacidade aparecem bem mais cedo. Estudos com bebés, medindo durante quanto tempo olham para cenas que violam expectativas, sugerem que crianças de cerca de quinze meses já reagem como se registassem a crença falsa de uma personagem. Importa marcar isto como interpretação em debate: alguns desses resultados têm sido difíceis de replicar, e a comunidade científica ainda discute se medem teoria da mente verdadeira ou regras mais simples de atenção.

No cérebro, a investigação por neuroimagem associa o mentalizar a uma rede que inclui a junção temporoparietal e o córtex pré-frontal medial, regiões que se ativam de forma consistente quando refletimos sobre os pensamentos alheios. Tal como o nosso entendimento físico do mundo depende de leis estáveis — pense-se em como a a velocidade da luz funciona como limite absoluto do espaço-tempo —, também a vida social parece apoiar-se em circuitos especializados, ainda que muito menos compreendidos.

Por que importa: o tecido invisível da sociedade

Quase tudo o que consideramos especificamente humano repousa sobre a teoria da mente. A linguagem, por exemplo, depende dela em cada frase: quando dizemos uma ironia, contamos com que o ouvinte perceba que pensamos o contrário do que dizemos. O humor, a metáfora, a persuasão e a mentira são, todos eles, jogos de mentes que modelam outras mentes.

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A cooperação em grande escala também a exige. Para confiar num estranho, para negociar, para ensinar, precisamos de antecipar intenções e de avaliar o que o outro sabe e pretende. A própria moral assenta em parte nesta capacidade: julgamos um ato de forma diferente consoante acreditemos que houve intenção ou apenas acidente, o que pressupõe ler a mente por trás do gesto.

A ficção é talvez a demonstração mais pura. Acompanhar um romance ou um filme implica gerir simultaneamente o que cada personagem sabe, ignora, deseja e suspeita das outras. Sentimos suspense precisamente porque sabemos algo que a personagem não sabe. Sem teoria da mente, uma história seria apenas uma sequência de corpos a mover-se.

Esta dependência tão profunda explica por que é que diferenças nesta capacidade têm consequências tão visíveis na vida quotidiana, sobretudo na comunicação e nas relações.

Erros comuns: o que a teoria da mente não é

O equívoco mais frequente é confundir teoria da mente com empatia. São coisas relacionadas mas distintas. A teoria da mente é sobretudo cognitiva: trata de saber o que o outro pensa ou pretende. A empatia afetiva é sentir com o outro, partilhar a sua emoção. É possível compreender perfeitamente o estado mental alheio sem o partilhar — o manipulador hábil ou o vigarista são exemplos disso, pois leem mentes com precisão para enganar.

Outro erro corrente liga-se ao autismo. Diz-se por vezes que pessoas autistas não têm teoria da mente. Esta formulação é imprecisa e potencialmente estigmatizante. A investigação mostra, em média, diferenças no desempenho de algumas tarefas de mentalizar, mas há grande variação individual, e muitas pessoas autistas resolvem essas tarefas. Investigadores como Damian Milton propõem ainda o conceito de duplo problema de empatia: a dificuldade de compreensão é mútua, e pessoas não autistas falham igualmente em ler mentes autistas. Trata-se de uma hipótese influente, embora ainda em discussão científica.

Há também a tentação de tratar a teoria da mente como um interruptor que se tem ou não se tem. Na prática, é um conjunto de competências que se desenvolvem em camadas, do reconhecimento de desejos simples até à compreensão de crenças sobre crenças — saber que ele pensa que ela pensa. Estas formas de ordem superior continuam a amadurecer ao longo da infância e da adolescência.

Por fim, convém não exagerar o paralelo com a leitura do corpo. Tal como a relação entre intestino e cérebro mostra que muito do nosso estado interior é regulado por sistemas que não controlamos conscientemente — um tema que exploramos ao falar de como o microbioma intestinal influencia o humor e a saúde —, também o mentalizar mistura processos rápidos e automáticos com raciocínio deliberado.

Para onde caminha a investigação

Uma das fronteiras mais ativas é a comparação entre espécies. Após décadas de debate iniciado por Premack e Woodruff, a evidência sugere que chimpanzés e outros primatas compreendem objetivos e perceções alheias, mas é muito mais incerto que entendam crenças falsas como os humanos. Alguns estudos recentes com grandes símios, usando rastreio ocular, apontam para sinais de antecipação de crenças falsas; são resultados promissores que aguardam confirmação e devem ser lidos com cautela.

Outra direção é a inteligência artificial. Tem-se discutido se grandes modelos de linguagem exibem algo parecido com teoria da mente, por resolverem versões textuais da tarefa de falsa crença. A leitura prudente é que estes sistemas reproduzem padrões linguísticos associados ao mentalizar sem que haja prova de que representam mentes; pequenas alterações nos testes costumam fazê-los falhar, o que sugere imitação mais do que compreensão.

No plano clínico e educativo, cresce o interesse em apoiar a comunicação sem partir do princípio de que falta algo a corrigir. Em vez de treinar pessoas autistas para mentalizar à maneira maioritária, muitos investigadores defendem desenhar contextos em que mentes diferentes se entendam melhor mutuamente, em linha com a ideia do problema de empatia recíproco.

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O que torna esta área fascinante é que estuda o próprio instrumento com que a estudamos: usamos a nossa teoria da mente para investigar a teoria da mente. Compreender como aprendemos a imaginar os pensamentos uns dos outros é, no fundo, compreender o que nos liga enquanto seres sociais — e por que esse laço, tão eficaz, permanece tão difícil de explicar.

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